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- Martinho nasceu na Panônia, atual Hungria, no
século VI, provavelmente no ano de 518. Jovem, foi para
o Oriente, onde estudou Grego e ciências eclesiásticas,
com tal distinção que Santo Isidoro o chamou de ilustre
na Fé e na Ciência, e São Gregório de Tours o
considerava como um dos homens insuperáveis do seu
tempo. Voltando ao Ocidente, continuou os estudos, em
Roma e na França, tendo a oportunidade de conviver com
as pessoas de maior eminência em santidade e saber da
época. Em especial, visitou o túmulo de São Martinho de
Tours, de quem era especialissimamente devoto.
Foi então que conheceu o
rei Charrico dos suevos. Este era um povo de origem
germânica que invadiu a Península Ibérica (Hispânia do
Império Romano) em 409, tendo ali permanecido até 585,
quando foram derrotados pelos visigodos; inicialmente
ocuparam a antiga província romana da Galécia (atual
norte de Portugal e Galiza), estendendo-se ao Rio Tejo,
na região da Lusitânia, e sua capital era Bracara
Augusta (hoje Braga). Martinho acompanhou Charrico na
volta ao seu reino, em 550, e apesar de que desde 448 a
Galécia abraçava o Cristianismo, ali ainda havia restos
do gentilismo (isto é, paganismo) e expansão do
arianismo, por causa da grande ignorância religiosa.
Martinho foi um dos
principais obreiros da cristianização e do monaquismo
nesta região da Península. A partir de Dume, aldeia
próxima de Bracara Augusta, onde fundou um Mosteiro,
iniciou sua evangelização. Caso único na história da
Igreja, a Diocese de Dume por ele criada incluía apenas
o Mosteiro, e em 556 Martinho foi seu primeiro Bispo,
pois o Bispo de Braga, que lhe concedeu o Episcopado,
reconheceu sua santidade, zelo e saber.
Em 559 o arianismo já
estava praticamente extinto no reino suevo. Em 569
Martinho assumiu também a Sé de Braga, que, como capital
do reino e sede Episcopal, ganhou importância duradoura,
sendo até hoje a Sé Metropolita, ou primaz, das Dioceses
no noroeste português. Ele fundou também, pessoalmente,
a igreja e o Mosteiro de São Martinho de Tours, em
Cedofeita, na atual cidade do Porto, na época um
importante posto militar e administrativo (num burgo de
nome Cale Castrum Novum – Castelo Novo de Cale –, havia
um porto, Portus Cale ou Porto de Cale, atual Ribeira às
margens do Rio Douro, cujo nome deu origem ao nome
Portugal; Porto foi a capital, isto é, residência real,
centro administrativo e sede Diocesana do final do
domínio suevo).
Em 561-563 Martinho
convocou o 1° Concílio de Braga, quando proibiu que se
cantassem muitos dos hinos e cantos de caráter popular
nas missas e celebrações; com o tempo, a música
litúrgica foi sendo fixada no Cantochão (do qual deriva
o Canto Gregoriano, forma musical oficial da Igreja,
próprio para as celebrações litúrgicas, pois eleva com
serenidade a mente e a alma a Deus, sem distrações). Em
572, houve o 2° Concílio de Braga, e nesta ocasião ele
registrou: “com a ajuda da graça de Deus, nenhuma
dúvida há sobre a unidade e retidão da fé nesta
província”. De fato, um escrito de 580, o “Paroquial
Suévico” relaciona 13 Dioceses e 134
Paróquias na região, embora também alguns “pagus”,
paróquias arianas ou não cristãs.
São Martinho foi um
profícuo e profundo escritor, abordando temas morais,
teológicos, canônicos e monásticos. Além de “Escritos
canônicos e litúrgicos”, outras das suas principais
obras são: Aegyptiorum Patrum Sententiae (“Sentenças dos
Padres Egípcios”, que traduziu e comentou), De
Correctione Rusticorum (“Da Correção dos Rústicos”,
livro simples e claro para a evangelização dos pagãos –
não confundir com “Como Catequizar os Rudes”, de
Santo Agostinho), Formula Vitae Honestae (“Fórmula da
Vida Honesta”, durante séculos atribuído a Sêneca e
dirigido ao rei suevo, enfatizando a Justiça aos
responsáveis pelo governo), De Moribus (“Tratado dos
Costumes”), De ira (“Da Ira”, comentário ao
livro homônimo de Sêneca, e no mesmo espírito do ditado
latino ira furor brevis est, de Horácio – “a ira é
uma loucura de curta duração”), Pro Repellenda
Jactantia (“Para Repelir a Jactância”), Item de
Superbia (“Acerca da Soberba”), Exhortatio
Humilitatis (“Exortação da Humildade”).
Importantíssima
contribuição de Martinho na história da cultura e língua
portuguesas foi a adoção dos atuais nomes dos dias da
semana: segunda-feira, terça-feira, etc.. Até então,
todas as línguas utilizavam nomes de deuses pagãos para
este fim, relacionados aos astros, o que se mantém até
hoje exceto no Português; na origem, Latim Lunae dies
para o “dia da lua”, depois Espanhol Martes para
o “dia de Marte”, Inglês Saturday para o “dia
de Saturno”, etc.. Martinho utilizou uma
nomenclatura escolástica, Feria ou Festa (de onde
“feriado”), no caso, litúrgica: Feria secunda, Feria
tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta,
Sabbatum, Dominica Dies, o sábado em referência ao
Shabat sagrado dos judeus, que no Catolicismo foi
substituído pelo “dia do Senhor (Dominus)”, o
domingo. Assim a perspectiva pagã foi substituída no
povo católico pela referência ao Deus Uno e Trino, o
Qual nos concede o tempo. Como o 1° Concílio de Braga,
quando foi feita esta substituição, era um concílio
local e não de toda a Igreja, as demais línguas
neolatinas permaneceram com as origens pagãs. Os mais
antigos documentos em Português já trazem a mudança, uma
mostra de que a partir dos suevos latinizados já houve a
compreensão da maior dignidade desta nomenclatura para
os fiéis católicos.
De fato, dentre os povos
germânicos invasores, os suevos são reconhecidos como os
de maior influência e importância para a formação de
Portugal, tanto geograficamente quanto dos nomes e
diversos aspectos da cultura local, bem como da sua base
genética. Também São Martinho de Braga, pela sua obra de
evangelização, pelos seus escritos, pelo impulso
cultural do Mosteiro de Dume, que cresceu por toda a
Idade Média, marcou profundamente a cristianização,
história e cultura da Península Ibérica, notadamente
Portugal.
São Martinho faleceu em 20
de março de 579. Escreveu seu próprio epitáfio, honrando
seu patrono particular São Martinho de Tours, que
termina assim: “Tendo-te seguido, ó Patrono,
eu, o teu servo Martinho, igual em nome que não em
mérito, repouso agora aqui na paz de Cristo”.
É também conhecido como Martinho de Braga ou Martinho de
Dume, Martinho Dumiense, Martinho Bracarense ou Martinho
da Panônia. É considerado Apóstolo dos Suevos e
principal padroeiro da Arquidiocese de Braga. A sua
festa litúrgica oficial, no Calendário Romano, é a 5 de
dezembro, mas a 22 de outubro na Ddiocese de Braga e 20
de março em Portugal e na igreja Ortodoxa, que também o
reconhece como santo.
Colaboração: José
Duarte de Barros Filho
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