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João Crisóstomo nasceu por volta do ano 349, em
Antioquia, na Síria, Ásia Menor (atual Antakaya, sul da
Turquia). Sua família era nobre e muito rica, bem
considerada socialmente. Seu pai, um comandante de
tropas romanas no Oriente, faleceu cedo, e sua mãe
Antusa, futuramente canonizada, viúva aos 20 anos,
providenciou a melhor formação religiosa e acadêmica
possível para o filho. Na adolescência teve por mestre
de Retórica o famoso Libânio, que logo viu no aluno um
talento superior; de fato, queria torná-lo seu sucessor,
mas João deixou a Retórica para dedicar-se à Fé.
Preparado durante três anos
pelo Bispo Melécio de Antioquia, que o tornara quase que
um seu secretário, foi batizado e promovido a leitor.
Entre 367 e 372, participou do asceterio, espécie de
Seminário de Antioquia, dirigido por Diodoro,
futuroBispo de Tarso, quando conheceu bem vários
escritos sagrados.
Melécio foi então
condenado, pela terceira vez, ao desterro, e João
decidiu abandonar os ofícios temporais, pensando em se
retirar para uma vida eremítica. Não o vez imediatamente
por instâncias da mãe, que ficaria sozinha. Em casa,
passou contudo a viver num estilo monástico; não mais
frequentava a vida social, a não ser os contatos do é,
incluindo os futuros Monges Teodoro e (São) Basílio;
praticava o jejum e passava as noites estudando as
Escrituras, à luz de uma lamparina.
Viveu depois disso uma
experiência de quatro anos com os eremitas no vizinho
monte Silpio, e ainda mais dois anos isolado numa
caverna, estudando sem descanso dia e noite,
principalmente as Cartas de São Paulo, sem jamais se
recostar, o que lhe afetou a região gástrica e os rins.
Teve que voltar a Antioquia em 381, para uma recuperação
de saúde que durou cinco anos. Neste período foi
ordenado Diácono por Melécio, e escreveu algumas obras,
que logo começaram a ficar conhecidas. Sua capacidade
extraordinária de pregar ao povo sobre as Escrituras
também se evidenciou. Por isso ficou conhecido como
“Crisóstomo”, ou “boca de ouro”.
Em 386 o Bispo Flaviano,
sucessor de Melécio, ordenou-o como Sacerdote e pregador
oficial da Diocese. No ano seguinte, os sermões que
proferiu na Quaresma ficaram famosos (22, sobre
estátuas, direcionadas à penitência e à conversão),
relacionados à crise que ocorreu neste mesmo ano a
partir do aumento de impostos ordenado pelo imperador
Teodósio: um revolta popular em Antioquia contra esta
determinação levou à quebra de estátuas do imperador, da
imperatriz e dos seus filhos, o que deveria ser punido
com mortes.
Num primeiro momento o
imperador, em Constantinopla, foi tolerante nos
castigos, mas enquanto isso procurava investigar os
culpados. João aproveitou para pregar as virtudes
cristãs e a conversão com diligência no período
quaresmal, por rogos e advertências, a fim de que o bom
exemplo das pessoas inclinasse favoravelmente o
julgamento imperial; também conseguiu que Flaviano
visitasse o imperador acompanhado de pessoas escolhidas,
procurando lembrá-lo do valor das vidas humanas, levando
inclusive um discurso escrito pelo próprio João, de modo
a mitigar-lhe a ira. Teodósio enviou dois representantes
para Antioquia, não para uma punição, mas para apurar os
acontecimentos.
O povo, aliviado por não
ter tido castigo imediato, logo desdenhou os sermões de
João, voltando a se comportar como os pagãos. Em breve
prisões, torturas e execuções começaram a acontecer, em
ritmo acelerado e crescente. Convencido de que só o bom
comportamento poderia impedir estes abusos, João
solicitou aos Eremitas das montanhas próximas que
viessem à cidade em auxílio dos demais. Estes de fato
vieram, e com sua postura de vida e autoridade moral
enfrentaram os subordinados imperiais.
Um deles, Macedônio, disse
aos dois enviados de Teodósio: “...se os antioquenos
haviam agido mal destruindo imagens do imperador, que
aliás tinham sido substituídas por outras mais belas,
nem por isso o imperador, por mais imperador que fosse,
tinha o direito de matar homens vivos, imagens do
próprio Deus inseridas no livro da vida, que ninguém
seria mais capaz de reconstituir”.
João havia convocado também
Monges e todo o clero de Antioquia e cidades vizinhas,
que se ofereciam para morrer no lugar dos condenados, de
modo a que terminasse a matança. Foram então suspensas
temporariamente as execuções, para que se consultasse o
imperador. Finalmente o Bispo Flaviano, depois de
inúmeros obstáculos, pôde ler para Teodósio o discurso
de João, que enfatizava o valor infinito do perdão.
Ao final, o imperador,
tocado no coração, respondeu: “haverá algo de
estranho quando nós, homens, perdoemos aos que nos
ofenderam, homens também, quando o Senhor do mundo,
depois de ter descido à terra e de Se ter feito servo
por nós, […] implorou ao Pai pelo bem de Seus verdugos
com aquela oração: ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o
que fazem?’.
Decretou anistia geral,
perdoando os culpados e devolvendo a Antioquia os
privilégios antes suprimidos.
Entre 386 e 397, João fez
as suas mais famosas homilias. Em geral pregava três
vezes por semana, e as multidões com frequência choravam
ao ouvi-lo, sendo chamadas a abandonar os vícios e
leviandades e seguir os Mandamentos de Deus. Mas em 397,
falecendo o Bispo Nectário de Constantinopla, João foi
chamado para substituí-lo, por causa da fama das suas
palavras, sendo sagrado, de má vontade, pelo Ptriarca
Teófilo de Alexandria.
Constantinopla, a capital
com sua corte, era neste tempo a mais desenvolvida
cidade do império, mas também nos vícios e vontades
mundanas. Reinava então no Oriente um dos filhos do
falecido Teodósio, Arcádio, pusilânime, medíocre
intelectualmente, fraco de vontade, e casado com
Eudóxia, de origem social inferior, e cuja rápida
ascensão a imperatriz facilitara a vaidade, cobiça e
leviandade. O governo era exercido realmente por
Eutrópio, um eunuco do tempo de Teodósio, que chegara ao
cargo de “camareiro-mor”, com poderes de
primeiro-ministro, e a quem se sujeitava o casal
imperial; era ambicioso, de péssima conduta moral,
ganancioso, e articulara o casamento de Eudóxia, sua
protegida.
João verificou o lamentável
estado de baixeza espiritual e moral da corte, da
cidade, e, infelizmente, também do Cero. Começou um
esforço de reforma dos costumes, iniciando por si mesmo:
retirou e vendeu todos os objetos de luxo da casa que
ocupava, a do seu antecessor, e com o valor de
tapeçaria, sedas, veludos, etc., incluindo sua cama,
construiu um hospital e cuidou dos pobres. Dormia sobre
algumas tábuas, coberto com um único cobertor.
Combateu a heresia ariana,
que negava a divindade de Cristo, e condenou clara e
duramente os vícios da corte e particularmente dos
prelados. Em breve, a “aquisição” de um Bispo
famoso pela eloquência, que daria um maior “brilho”
à cidade, começou a incomodar os que haviam quase que
forçado o seu Episcopado: “aqueles que só pretendiam
deleitar-se com suas formosas frases tiveram que escutar
também amargas verdades sobre suas indignas ações (os
Bispos e cortesãos) e suas frivolidades”. Além
disso, Eutrópio caiu na desgraça do casal imperial em
399, e acabou sendo protegido por João. Eudóxia passou a
alimentar o desejo de vingança, e em termos práticos foi
ela quem assumiu a autoridade imperial.
João Crisóstomo não apenas
condenava verbalmente o luxo e a depravação da corte e
os privilégios abusivos, a indolência e os vícios do
Clero, mas tomou medidas práticas no que podia fazer
contra estes desvios. Assim removeu muitos Padres
indignos e também seis Bispos, incluindo o de Éfeso.
Cada vez mais ostensivamente, a nobreza e o clero
passaram a hostilizá-lo.
Outros dois fatores
contribuíram para a raiva contra João. O patriarca
Teófilo de Alexandria, que obrigado por Arcádio o havia
sagrado Bispo, desde este evento lhe guardava
ressentimento – talvez por inveja – que recrudesceu
quando alguns Monges egípcios excomungados por Teófilo
buscaram João para dar resposta às acusações que lhes
tinham sido feitas. E Crisóstomo criticou Eudóxia e as
cortesãs do palácio pelo seu modo pagão de vida, as
quais reagiram com insultos e procurando desacreditá-lo.
Assim, em 403 Teófilo e
Eudóxia convocaram um Sínodo com 36 Bispos hostis a
João, em sua ausência, que o condenou com base em 21
casos falsos. O imperador Ardósio, já induzido à má
vontade para com ele, condenou-o ao exílio, na Bitínia
(antiga região do noroeste da Ásia Menor, na costa do
Mar Negro, hoje Anatólia na Turquia). Este foi um exílio
muito curto, por causa da indignação popular, que
assustou a imperatriz e proporcionou o seu regresso.
Curto, porém, foi o período
de calma, pois espetáculos e festas inadequadas e a
imposição de uma estátua de prata de Eudóxia, a poucos
metros da catedral, seguiram-se apenas dois meses
depois. João tornou a criticar duramente estes excessos,
e logo seus opositores o acusaram de afronta à
imperatriz.
A resposta de João foi uma
homilia condenando claramente festas pagãs em honra de
imperadores cristãos, acrescentando que “já se
enfurece novamente Herodíades, novamente se comove,
dança de novo e mais uma vez pede a cabeça de João numa
bandeja”. Diante da controvérsia, Ardósio o proibiu
de exercer as funções Eclesiásticas e ordenou sua
reclusão dentro da Igreja. Crisóstomo, contudo, não
podia em consciência deixar de celebrar as cerimônias da
Semana Santa que se aproximavam, e houve violência
durante os batizados na Vigília Pascal. Por causa disso
João foi novamente exilado, não sem denunciar ao Papa,
por carta, os acontecimentos.
Partiu em 404 para Cucusa,
na Armênia, ao leste da (atual) Turquia, região entre o
Mar Negro e o Mar Cáspio. Mesmo a esta distância, sua
comunidade de Antioquia deslocou-se em peregrinação para
encontrá-lo, o que provocou a ira ainda maior dos seus
inimigos. Estes instigaram Arcádio a impedir as visitas
dos fiéis, transferindo João para Pytius (atual
Ptisunda, na Geórgia), às margens do Mar Negro, o que
equivalia a uma condenação à morte: de fato, a caminhada
a pé sob clima e terreno rigorosos o exauriram, e ele
chegou moribundo a Comana Pontica (na atual Turquia).
Faleceu em 14 de Setembro de 407, festa da Exaltação da
Santa Cruz (por isso sua festa é comemorada um dia
antes), na capela do mártir São Basilisco, onde foi
sepultado.
Em 438, seus restos mortais
foram transladados para Constantinopla, sob o imperador
Teodósio II, filho se Arcádio e Eudóxia, que durante o
cortejo, com o rosto apoiado no caixão, pedia a João
Crisóstomo perdão para os seus pais.
São João Crisóstomo é
Doutor da Igreja, Padroeiro do Concílio Vaticano II, e
um, senão o primeiro, dos maiores oradores católicos da
História. Sua obra escrita é quase toda conservada, e
inclui 17 tratados, mais de 700 homilias autênticas,
grande parte delas sobre São Paulo, e 241 cartas. Seu
livro mais famoso é "Sobre o Sacerdócio",
clássico de espiritualidade monástica.
Colaboração: José Duarte de Barros Filho
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